Os animais de companhia conseguem hoje viver muito mais tempo do que no passado, mas esse aumento da longevidade também traz um risco maior de declínio cognitivo com a idade, semelhante ao que acontece nas demências humanas.
Nos cães, este problema é conhecido como síndrome de disfunção cognitiva (CDS). Trata-se de uma doença discreta e progressiva, capaz de evoluir lentamente ao ponto de passar despercebida até para tutores muito atentos.
Tal como em pessoas com doença de Alzheimer (a forma mais comum de demência), os cães com CDS podem desenvolver alterações na aprendizagem, na memória e nas funções executivas.
Disfunção cognitiva canina (CDS/CCD): sinais e porque pode passar despercebida
Os sinais neurológicos tendem a ser descritos como "muito inespecíficos", o que ajuda a explicar porque são, muitas vezes, atribuídos apenas ao envelhecimento normal. Ainda assim, podem incluir desorientação, mudanças nas interações sociais, sujidade dentro de casa, ansiedade ou perturbações do ciclo sono–vigília.
Um cão pode deixar de se lembrar de onde está a taça de água, começar a evitar pessoas (ou, pelo contrário, tornar-se excessivamente dependente), ladrar ou uivar sem um estímulo evidente e, à noite, dormir menos ou andar de um lado para o outro sem objetivo.
Para facilitar a memorização, existe até um acrónimo: DISHA(A). Refere-se a desorientação em ambientes familiares, alterações nas interações, alterações do ciclo sono–vigília, sujidade dentro de casa e alterações nos níveis de atividade. Em alguns casos, acrescentam-se agressividade e ansiedade como A’s adicionais.
Detetar estas mudanças o mais cedo possível é importante, porque o declínio cognitivo em animais pode agravar-se ao longo de apenas alguns meses.
Impacto no bem-estar e medidas práticas no dia a dia
Apesar de não existir cura para a chamada “demência canina”, estão a ser avaliadas intervenções que podem ajudar a melhorar a qualidade de vida e, potencialmente, a longevidade de cães idosos.
Numa revisão sobre a CDS, publicada no início deste ano, os investigadores alertaram: "Infelizmente, quando os sinais clínicos e comportamentais se tornam tão graves, já é tarde: manifestações clínicas graves estão estritamente relacionadas com neurodegeneração grave, que é uma condição progressiva e irreversível".
Acrescentaram ainda: "Este tipo de situação leva à irritabilidade e frustração dos tutores, elementos que contribuem para agravar a relação com os seus cães, sem considerar que todas estas coisas também afetam o bem-estar dos animais".
Entre as medidas de proteção que os tutores podem adotar contam-se: impedir o acesso a zonas perigosas da casa (por exemplo, escadas), aumentar os passeios para reduzir acidentes dentro de casa ou ponderar fármacos, como a melatonina.
Diagnóstico, tratamentos em estudo e o valor para a investigação
Nos EUA, a selegilina é frequentemente sugerida para cães com declínio cognitivo associado à idade, embora a sua eficácia não seja clara.
A selegilina é, atualmente, o único medicamento aprovado pela Administração de Alimentos e Medicamentos dos EUA (FDA) para o tratamento da CDS. No entanto, em humanos, este fármaco acabou por ser considerado um tratamento ineficaz para a demência.
Perante resultados limitados com medicação, investigadores da Universidade de Adelaide, na Austrália, estão a explorar se exercícios de treino específicos podem reforçar a cognição em cães seniores com disfunção cognitiva canina.
Em 2024, a veterinária Tracey Taylor, da Universidade de Adelaide, afirmou: "Alguns estudos sugerem que até 60 por cento dos cães seniores, sobretudo com mais de 11 anos, são afetados pela demência canina".
E acrescentou: "Muitas vezes os tutores pensam que o cão está apenas a abrandar, mas sintomas como perder-se em casa, mudar as interações com outros cães ou humanos, e um olhar vago podem ser sinais de disfunção cognitiva canina".
A CDS também é conhecida como disfunção cognitiva canina (CCD).
Consoante a região, um cão pode receber um diagnóstico formal de CCD quando cumpre escalas estabelecidas, incluindo a Escala de Demência Canina (CADES), a Escala de Avaliação Cognitiva Canina (CCAS) ou a Escala de Classificação da Disfunção Cognitiva Canina (CCDR).
Ainda assim, sem um teste padronizado ou um biomarcador fiável, a comunidade científica continua a tentar definir a melhor forma de diagnosticar este distúrbio.
Num estudo recente com 70 cães com sete anos ou mais, foi utilizado o diagnóstico pela CADES e concluiu-se que quase 66 por cento dos cães apresentavam disfunção cognitiva, sendo que 11 por cento revelavam disfunção grave.
Não é certo se estes valores se mantêm quando se recorrem a outras escalas de avaliação da CCD.
Neste momento, a única forma de confirmar de modo definitivo a CCD é através da análise do cérebro do cão após a morte.
De forma interessante, cérebros de cães que morreram com CCD apresentam vários marcadores semelhantes aos observados em cérebros humanos afetados pela doença de Alzheimer, incluindo emaranhados proteicos e acumulação de placas amiloides.
Isto torna os cães modelos animais particularmente relevantes para compreender o que pode estar a acontecer também no nosso cérebro.
Num artigo de perspetiva publicado em setembro de 2025, um grupo de neurocientistas nos EUA defendeu que, ao contrário dos roedores, os cães são um modelo útil para estudar a demência porque partilham o ambiente humano e os respetivos fatores de risco.
Alguns destes investigadores integram o Projeto de Envelhecimento Canino da Universidade de Washington, cujo objetivo não é apenas prolongar a vida dos animais de companhia, mas também contribuir para melhorar a saúde humana.
Escreveram: "O cão de companhia fornece um modelo de doença que contrasta com modelos animais que vivem em domínios altamente regulados e pouco naturais, como laboratórios ou canis".
E concluem: "Se a disfunção cognitiva canina puder servir como um modelo de doença em grandes animais para a doença de Alzheimer em humanos, o poder translacional de futuros estudos [caninos] poderá avançar significativamente a medicina humana".
Mais investigação sobre a demência canina traz benefícios tanto para nós como para os nossos animais.
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