Viver com asma grave: uma luta diária
Ter asma grave é viver numa espécie de negociação permanente com os próprios pulmões. Num instante, respirar torna-se assustadoramente difícil e aquilo que antes era automático - falar, subir escadas ou simplesmente andar - passa a exigir um esforço quase impossível, com sintomas persistentes, intensos e, muitas vezes, pouco responsivos à medicação habitual. A isto soma-se a imprevisibilidade: mesmo cumprindo a terapêutica, nunca é claro quando surgirá a próxima crise. O dia-a-dia começa a ser planeado à volta de potenciais gatilhos, como o fumo, o pólen, o perfume de alguém ou até o ar frio.
À noite, a pieira e a falta de ar interrompem o descanso, o sono fica fragmentado e o cansaço vai-se acumulando. As idas repetidas ao hospital acabam por se integrar na rotina e o peso emocional acompanha o quadro físico: ansiedade, stress e a necessidade constante de estar atento ao que pode desencadear mais uma exacerbação. Viver com esta condição implica uma vigilância contínua, sem pausas.
O que mudam os medicamentos biológicos na asma grave
Ainda assim, para quem vive com asma grave e é elegível para medicamentos biológicos, existe um “antes” e um “depois”. Com estes tratamentos, o benefício não se fica pelo alívio físico: abre-se espaço para recuperar, finalmente, algum controlo sobre a própria vida.
Na prática, estes medicamentos constituem uma das mais relevantes descobertas recentes para quem tem asma grave. Podem alterar o curso da doença ao reduzirem de forma acentuada as crises, os internamentos e a necessidade de corticosteroides orais, ao mesmo tempo que contribuem para melhorar a função pulmonar e a qualidade de vida. Para muitas pessoas, representam a diferença entre viver sob crises frequentes e voltar a conseguir respirar com mais estabilidade.
O que diz a evidência: 45% e 57%
Um estudo que analisou a evidência científica confirma o impacto desta terapêutica: associou-se a uma redução de 45% nas exacerbações (crises) de asma grave e a uma diminuição de 57% nas hospitalizações relacionadas com a doença. O mesmo trabalho aponta ainda para melhoria da função pulmonar, melhor controlo dos sintomas e ganhos na qualidade de vida.
Portugal e o acesso: Portaria nº 261 de 2024 e tempos de espera no SNS
Apesar de existirem dados, estudos e investigação científica a sustentar estes resultados, em Portugal as pessoas com asma grave enfrentam grandes barreiras para aceder a este tipo de medicação. Ao contrário do que sucede com doentes com outras doenças crónicas incluídas na Portaria nº 261 de 2024 - diploma que alterou o regime excecional de comparticipação e permite, em determinados casos, acesso a prescrições fora do Serviço Nacional de Saúde (SNS), encurtando tempos de espera - a asma grave não integra essa lista.
Na prática, isto obriga muitos doentes a suportar os tempos prolongados de espera por consulta de especialidade no SNS. No caso da Imunoalergologia ou da Pneumologia, em algumas regiões, isso pode significar esperar um ano e meio por uma consulta, quando o tempo recomendado são 120 dias. Durante esse período, estas pessoas continuam a viver com incerteza, com sintomas descontrolados e com a incapacidade de alcançar estabilidade clínica.
Entretanto, mantém-se frequentemente a dependência de abordagens convencionais, incluindo corticosteroides orais, com os conhecidos efeitos secundários que podem, por sua vez, desencadear outros problemas e doenças.
Orientações internacionais e o que falta fazer
Nem as orientações internacionais, que sublinham que os medicamentos biológicos devem ser o padrão terapêutico para doentes com asma grave que permanecem descontrolados apesar da terapêutica inalatória máxima, parecem estar a ser devidamente consideradas.
A Estratégia Global para o Controlo e Prevenção da Asma (GINA) é inequívoca: os medicamentos biológicos são hoje uma opção central, sustentada por evidência, para pessoas com asma grave descontrolada, depois de já se ter feito o escalamento das restantes opções terapêuticas disponíveis. Também o American College of Chest Physicians, que publicou recentemente uma nova orientação clínica sobre o tratamento biológico da asma grave, recomenda estes fármacos para doentes que não respondem a doses elevadas de corticosteroides inalados, em associação com a terapêutica de controlo.
Para cerca de 10% dos doentes asmáticos que vivem com a forma grave da patologia, estes medicamentos são encarados como verdadeiramente transformadores. Não são uma opção acessória nem um recurso experimental: fazem parte do tratamento moderno desta forma da doença e podem quebrar o ciclo de crises repetidas, reduzindo a necessidade de uso prolongado de corticosteroides orais - cujos efeitos secundários graves são amplamente conhecidos e bem documentados.
A evidência existe, as orientações internacionais são claras e a solução está, literalmente, ao alcance de uma portaria que já abriu caminho a doentes com outras patologias. Integrar a asma grave nesta lista seria um passo simples, mas com impacto transformador: a diferença entre esperar um ano e meio por uma consulta e iniciar tratamento em tempo útil. Até lá, milhares de pessoas em Portugal continuam a negociar com os próprios pulmões - não por falta de solução, mas por falta de vontade política.
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